domingo, março 04, 2007

Orgulho e Preconceito

O grande problema de um roteirista ao adaptar um livro para o cinema, seja ele qual for, é conseguir captar todas as nuances que o escritor deu ao seu trabalho na transposição. Justamente na forma como o roteiro de "Orgulho e Preconceito" foi tratado que reside o seu maior defeito: falta-lhe a ironia fina, a sagaz observação aos padrões da época que permeia cada entrelinha dos escritos de Jane Austen.

Austen (1775-1817), nascida em Hampshire, Inglaterra, foi a filha caçula de oito irmãos de uma família tradicional. Escreveu, aos quinze anos de idade, seu primeiro romance, Amor e Amizade, e em 1796 deu cabo a Primeiras Impressões, que acabou sendo recusado por um editor. Austen então o reescreveu totalmente, e o rebatizou de Orgulho e Preconceito, sendo este lançado somente em 1813, e que acabou se tornando seu romance mais famoso.

Orgulho e Preconceito, assim como as demais obras de Austen, acabou recebendo várias adaptações para o cinema. Greer Garson e Laurence Olivier, em 1940, já travavam as batalhas intelectuais do romance. Em 1995, foi a vez de Jennifer Ehle e Colin Firth, em uma aclamada minissérie feita para a televisão britânica. Dessa vez, os papéis principais ficaram com a irradiante Keira Knightley e o soberbo Matthew Macfadyen.

A história do filme (ou do livro, como preferir) se centra na tradicional família Bennet, onde Sr. (Donald Sutherland, em notável atuação) e Sra. Bennet (Brenda Blethyn, escorregando de vez em quando) estão às voltas com o alvoroço que um recém-vizinho rico, Sr. Bingley (Simon Woods), tem causado em suas cinco filhas, principalmente em Jane (Rosamund Pike), que enxerga nele o casamento dos seus sonhos. Naquela época, o enlace matrimonial era coisa séria: não casar significaria à pobre moça o estigma de solteirona, perdedora e infeliz. Portanto, não casar não era uma atitude feminista, simplesmente não era adequado à época.

Elizabeth Bennet (Knightley) é uma moça à frente do seu tempo. Não tão bonita quanto a sua irmã e de uma sagacidade e inteligência superior, ela enxerga com outros olhos a vida e o seu destino. Mas acaba envolvida com o melhor amigo do Sr. Bingley, o aristocrata e pedante Sr. Darcy (Macfadyen). Inicialmente, como em toda história de amor que se preze, eles não se bicam: ela, por achá-lo soberbo; ele, por desprezar a condição social dela. Depois, ele acaba por se apaixonar por ela e, mesmo amarrado aos preceitos da época, se declara, mas é rejeitado. Até que enfim acertam os ponteiros.

É uma história de amor, sim, e das mais belas, mas o que falta ao filme é exatamente um olhar mais satírico por parte da roteirista estreante em cinema Deborah Moggach. Tanto é que o filme muitas vezes percorre a perigosa linha do "filme açucarado de mulherzinha". Mas há de elogiar o roteiro em uma questão: há diálogos inteiros do livro fielmente transpostos, algo rarísismo de se ver hoje em dia, o que prova que a roteirista manteve, acima de tudo, o respeito pela obra em questão.

O diretor Joe Wright, egresso da tevê e também estreante na tela grande, faz um trabalho bastante acadêmico, bem quadradinho. Pausado, não tem pressa em construir seus personagens e consegue envolver o espectador – e nesse ponto ajuda, e muito, a climática e solar trilha de Dario Marianelli. Em certo momento, a câmera de Wright passeia por cômodos mostrando vários personagens, em um belo momento de arrojo. Deve ter deixado James Ivory morrendo de inveja.

(Por Andy Malafaya, no site Cineplayers)

Nota: Para quem gosta do gênero, é um belo romance sem cenas reprováveis (coisa rara). É apropriado para discussão de valores e para comparações com os padrões morais de nossos dias e os comportamentos associados ao namoro e casamento. Um pouco do respeito que se dava à instituição na época (sem exageros, é claro) seria bom resgatar.

5 comentários:

Thâmia disse...

'Orgulho e Preconceito' é um dos filmes mais bonnitos que já vi.
É um romance bem detalhado que não caiu nos coloridos de Hollywood.
Muito bem contado e sem nenhuma cena reprovável.
Aliás, só tem o beijo do casal nos extras do DVD.

Imperdível.

stella halley disse...

Para os admiradores de Jane Austen, é uma grande alegria ver seus romances levados à tela com beleza e talento. Gostei bastante desta versão, com pequenas ressalvas.

Discordo do comentário do Cineplayer sobre o desempenho de Donald Sutherland. Ele criou um Sr. Bennet bem mais suave que o original. No livro dá para perceber claramente de quem Elizabeth herdou a sagacidade e humor. Pai e filha mostram grande afinidade.

Jane em absoluto é inferior à irmã mais moça, pois prima pela bondade que, a meu ver, está acima de qualquer virtude intelectual. Ela sinceramente se apaixona pelo sr. Bingley.

Achei Brenda Blethyn ótima como a mãe um tanto tola, mas totalmente devotada à missão de casar as filhas.

Adorei esse blog e voltarei MUITAS vezes. Parabéns pelo bom gosto!:)

Késia Mota disse...

Não é uma adaptação muito boa de Jane Austen, como foi Razão e Sensibilidade, mas gostei.

Como sempre, penso que ler o livro é bem melhor.

rebeka disse...

orgulho e preconceito é um ótimo filme....Um dos meus preferidos
Ppra quem gosta de filmes romanticos então é uma boa pedida!!!nostra quâo preconceitoosa eram as pessoas naquela época

Isabella disse...

Eu li o livro e realmente achei que o roteiro representou bastante a história! Orgulho e Preconceito é uma ótima sugestão, sempre uma boa ideia!