sexta-feira, abril 28, 2006

Lutero

"Lutero" (Alemanha, 2003), versão cinematográfica sobre a vida de Martinho Lutero, o grande reformador do século XVI, é a produção de uma associação de cunho eclesiástico, Thrivent for Luterans. Filmada em 2003, conta com a direção de Eric Till, experimentado cineasta, e a participação de grande elenco de estrelas, dentre as quais se destaca a lendária figura de Peter Ustinov, no papel de Frederico da Saxônia.

O filme em si, segundo o princípio pedagógico que sustenta a idéia de que a aprendizagem pelo ouvir aumenta em proporções maiores pelo ver, já é uma significativa contribuição ao conhecimento histórico daquela fase do Cristianismo. Nesta resenha, não se pretende estruturar uma crítica dos elementos e recursos da dramaturgia que envolvem a encenação; mas destacar alguns aspectos históricos e teológicos, que por divergência ou omissão, se prestam a tal finalidade.

** LUTERO DIVIDIU A IGREJA?

No filme, a figura de Lutero ressalta na projeção de quase todas as cenas gravadas. Começa com a decisão de se tornar monge, ao sofrer os efeitos aterradores de uma seqüência de raios a cair no campo que ele atravessava. Seu martírio, nas cenas de auto-flagelação, corroboram a luta de consciência que experimentava por causa do sentimento de culpa. Seu reconhecimento sobre os méritos de Cristo, como causa única de perdão, o levam a contrariar as propostas do papado, de salvação mediante a venda de indulgências. Dessa maneira, Lutero torna-se o líder de multidões, enfrentando com coragem as pressões políticas da autoridade Real e da Igreja; apesar da fisionomia calma, quase impassível, que mostra em todo momento o ator que o representa.

Esses fatos, encenados dessa maneira, parecem confirmar o propósito dos idealizadores - o qual está claramente exposto no cartaz principal do filme, com os seguintes epítetos: “O Homem que Mudou o Mundo”, e “O Homem que dividiu a Igreja”.

Ninguém duvida que Lutero tenha sido o grande reformador da Igreja; mas, que ele e só ele tenha efetuado essa obra, é, no mínimo, ignorar o papel desempenhado por dois movimentos que o precederam, cuja função foi a de aplainar sua estrada de atuação. Esses dois movimentos foram a Pré-reforma e o Humanismo.

A Pré-reforma não foi um movimento unificado que apresentasse características típicas de uma organização social. Foi, sim, a contribuição individual, algumas vezes o clamor de eremitas emitindo vozes para os quatro ventos, clamando por uma nova forma de religiosidade. A Pré-reforma foi o despertar de uma nova aurora tanto racional como religiosa com a finalidade de tornar a Igreja uma sociedade capaz de manter comunhão com Deus e cumprir sua missão.

Enumerar esses paladinos da nova esperança é só uma tentativa obstinada de manter na memória alguns personagens como Cláudio de Turim, Pedro de Bruys, Arnaldo de Brescia, Pedro Valdo, Tanquelmo, Eudo de Estela, Pedro Grossetete, Wicleff, João Hus, Savonarola - alguns dos quais testemunharam suas aspirações com a própria vida.

Não menos relevante e oportuno, para o processo de reforma, foi o movimento filosófico literário denominado “Humanismo”. Embora as pretensões das principais figuras desse movimento não tivessem o ideal de religiosidade, suas obras foram um desafio e acusação contra o autoritarismo e corrupção do papado. Figuram entre esses autores: Francesco Petrarca, cujas obras escritas em latim condenavam a corrupção do clero; Giovanni Boccaccio, autor de Decamerone, obra de humorismo anti-clerical; Tomas Morus, que deixa transparecer seus desejos de reforma com suas obras Utopia e Restitutio Christianismi; Francesco Fillelfo, que propõe na sua obra Theologia Platonica da Immortalitate Animorum uma nova fórmula de salvação; Dante Alighieri, com sua Divinita Commedia, condena ao inferno vários prelados da Igreja; Erasmo de Rotherdam, contemporâneo de Lutero, escreveu Moriae Encomium, uma sátira contra o clero.

** IGNORÂNCIA E SUPERSTIÇÃO: ARMAS DO PAPADO

No filme, nas cenas em que Lutero aparece transitando pelas ruas da Roma papal, o espectador tem uma clara imagem da deplorável condição social da maioria das pessoas, consideradas súditos do rei e devotos do papa. Essa condição social pode ser expressa em dois termos: ignorância e superstição. Foram essas condições as desejadas pelo papado para configurar seus projetos de domínio das consciências humanas. A ignorância deixava as pessoas na incapacidade de visualizar a forma correta de aproximar-se de Deus; a superstição permitia ao papado extorqui-las com ameaças do fogo infernal.

As cenas projetadas, que exibem essa condição social, impressionam ao apresentar multidões de famintos e esfarrapados, vítimas anônimas da exploração clerical, depositando nos cofres papais suas míseras moedinhas, para poderem eles e seus queridos falecidos se livrar das assaduras eternas do inferno. O próprio Lutero segue, em cena, uma longa fila para apreciar com reverência o crânio de João Batista, e na condição de penitente, ascende de joelhos sobre os degraus da “Escada de Pilatos”, aquela que, segundo o papado, Jesus subiu durante seu julgamento e que foi levada por anjos até seu lugar, em Roma. Logicamente, esses objetos como todas as relíquias dessa época eram fraudulentos.

A corrupção, do ponto de vista da imoralidade sexual, tem no filme uma pequena cena reveladora, quando um prelado, vestido a caráter, e uma prostituta concordam em ter uma relação sexual. Essa encenação, sendo a única desse gênero, chega até absolver da falta de pudor a cúpula do papado. Mas, a História não o fará.

Nos decênios e séculos precedentes ao período da Reforma Luterana, o palácio papal chegou a ser transformado em antro da mais profícua forma de depravação. Ali foram engendrados inúmeros filhos, alguns dos quais protagonizaram as mais temíveis atitudes de delinqüência e imoralidade, como Crescêncio, filho da inescrupulosa Teodora com o papa João X; Jerônimo Riário, com excessiva ambição de poder e assassino, filho do papa Sixto IV; os seis filhos do papa Inocêncio VIII, enriquecidos com o favor da imunidade e da violência; César Borgia, filho do papa Alexandre VI, cuja vida inspirou o que de mais perverso pode a literatura expressar.

Devido à condição social das pessoas, naquele período da História e da corrupção do papado, o ambiente para uma execução reformadora dos procedimentos da Igreja e dos meios de alcançar a salvação, estava plenamente configurado. O último impulso para dar início ao movimento reformador foi determinado pela presença do representante papal, oferecendo os benefícios das indulgências.

Nas cenas do filme, o representante papal, Tetzel, aparece numa atitude semelhante à de traficante de quinquilharias, porém, aureolado com ostentação e truculência quando deixa passar a palma da mão pelas chamas de uma tocha acesa, diante dos olhares atônitos do povo supersticioso. Poderia ser mais objetivo o apelo para a compra de indulgências?

As convicções de Lutero sobre a comercialização de indulgências era o oposto das propostas papais. A reação dos prelados foi decisiva e em certa medida contundente. Finalmente, Lutero foi intimado a depor na Dieta de Worms, diante da sua majestade o jovem rei Carlos V. Perante representantes da Igreja e dos nobres da Europa, Lutero, diante do inquisitorial pedido de retratação, respondeu na altura e profundidade que a ocasião requeria: não se retrataria das suas idéias.

** LUTA DE CLASSES

No filme, a resposta de Lutero, soa como o grito libertário de uma classe oprimida, e é seguida por consignas de ordem política que descambam em atitudes de terror e pilhagem. Essas cenas, as quais provavelmente reproduzem o que realmente aconteceu, só tendem a confirmar a teoria de Karl Marx sobre a História. Para esse teórico social, os eventos históricos acontecem como uma expressão de luta de classes; ou seja, o encontro em ambiente de beligerância, de grupos sociais qualificados como opressores e oprimidos, ou ricos e pobres. Os primeiros estariam representados pelos prelados católicos, e os outros estariam representados pelas camadas sofredoras do povo indefeso.

Nos registros da História se encontra a rebelião armada de camponeses que ocorreu no ano 1525, na Alemanha, ou seja, pouco depois da Dieta de Worms. A causa desse levante era a situação social e econômica à qual estavam submetidos os camponeses. O Feudalismo os havia reduzido a um estado de virtual “escravidão”, sem proteção das leis. Dessa forma, estimulados pela rebelião religiosa propiciada por Lutero, os camponeses ficaram mais fortes e decididos nas suas pretensões, e a Reforma se tingiu com a cor da política e o movimento social. O próprio Lutero procurou conciliar as facções, e não conseguindo, condenou a rebelião dos camponeses. Cabe destacar que a repressão dos latifundiários sobre os camponeses foi executada com crueldade.

Fica difícil, através das cenas do filme, tentar argumentar a favor da influência positiva, ou melhor, da elevação de espiritualidade que os argumentos sobre a salvação, resumidos na consigna “o justo viverá pela fé”, tenha causado entre as multidões daquela época. Em lugar da piedade, surge a intolerância; a consagração a Deus cede ao instinto de vingança; a fraternidade cristã é substituída pelo rancor e morte de milhares de pessoas, algumas vítimas indefesas.

** MAIS DO QUE JUSTIÇA SOCIAL

No filme, as escassas cenas de ambiente de prosperidade espiritual promovida pelo movimento de Lutero se observam na reunião dos príncipes que apóiam a causa luterana, celebrada antes do encontro com o rei Carlos V. A outra é na atitude de humildade diante do rei Carlos V, na Dieta de Ausburgo, confirmando sua decisão de não seguir as tradições católicas, ainda que essa atitude lhes custasse a própria vida. Era o “protesto” dos príncipes, embora nas cenas permaneçam excluídas e nem sequer se faça menção da “Confissão de Ausburgo”, que contém a declaração da doutrina da salvação mediante a fé em Cristo Jesus.

Independente da humilde atitude dos príncipes presentes na Dieta de Ausburgo, a História registra a conformação de uma aliança militar, denominada Liga de Torgau que tinha a finalidade de preservar os principados da autoridade católica. Mais tarde, a expansão do luteranismo determinou a conformação de outra aliança, denominada Liga de Smalkalda, que teve seu fim trágico no ano 1547, na batalha de Mühlberg, onde foram fragorosamente derrotados pelos exércitos de Carlos V.

Concluímos com uma favorável asseveração sobre o filme na sua apresentação plena. No entanto, é preciso destacar, em síntese, que o movimento de Lutero, embora tenha sido levado pelos ventos da reivindicação político-social, permitiu que o cristianismo ou os seguidores de Cristo e seu evangelho bíblico tivessem a oportunidade de conhecer o verdadeiro processo de redenção: a justificação pela fé.

Dr. Rúben Santos Aguilar é professor de História do Cristianismo do Curso de Teologia do Centro Universitário Adventista, Campus Engenheiro Coelho (SP). Texto originalmente publicado na revista eletrônica Kerygma.

6 comentários:

Evandro disse...

Recomendo muito, o documentário

[b]"A CORPORAÇÃO"[/b]

É dificil encontrá-lo, mas existem algumas locadouras que possuem. E talvez se consiga encontrar onde coprá-lo na Internet.

É extremamente bom. Eu diria, IMPERDIVEL.

É um documentário feito por grandes intelectuais do EUA, analisando o sistema capitalista, e as grandes corporaçÕes, multinacionais.
E nisso tudo entra a TV, a mídia, publicidade. E um monte de verdades são mostradas. E mostra-se claramente como as pessoas são manipuladas e fazem parte de cruel sistema.
Também é feito uma comparação psicológica, das corporações com o perfil de um psicopata, e o resultado é impressionante.

São, aprox. 3h45min. de documentário, em ingles (com legenda). Com muita, muita e muita informação, tem que se acostumar a ler rápido. E dar muitos pauses no filme, para refletir um pouco, fazer anatoçÕes. etc.


É imperdível mesmo.


Também, assisti o Hotel Ruando, na aula de HIstória. E é excelente também.

Evandro disse...

Também tem o filme

DUelo de Titãs.

Talvez um dos melhores que trata o assunto de "espirito de equipe", "racismo"...

baseado em história real. é muito bom

thiago disse...

Sensacional essa iniciativa de indicar e comentar bons filmes para cristãos! Vai ser muito útil pra mim!

gilmar disse...

gostei dos comentarios dos filmes, também gostei de um chamado " o Quarto rei" . Um suposto quarto rei mago. Deixa uma lição muito legal.

Késia Mota disse...

O filme Lutero...

Não, não vou dizer se gostei ou não.

É bom ver, mas aconselho ver sem deixar de pensar. Procurar conhecer mais da história, enfim.

Anônimo disse...

Muito bom o filme.tem lá seu lado de fantasia,mas nada nocivo. O 4º rei é fenomenal! NAda de efeitos especiais na tela.Apenas no coração!